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Josué Mattos entrevista Victor Leguy  //  [scroll down for english version]
Paço das Artes / Temporada de projetos_2014
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Josué Mattos: À primeira vista, a rasura, o objeto descartado e o anonimato parecem pontos de partida para uma pesquisa que você desenvolve com o intuito de reagrupar situações díspares. Você coleta experiências alheias por meio de conversas informais e, para tanto, se utiliza de diferentes meios de comunicação. Em seu trabalho é comum o valor do encontro — como é o caso da obra que mostra nesta exposição, resultado de uma pesquisa realizada em residência na Finlândia, em 2013 —, mas ele não exclui informações obtidas de maneira contrária, cuja autenticidade, por ser comprometida, desfaz as regras do jogo. O que poderia ser interessante para começo de conversa é pensar nestas incongruências, que valorizam eventos históricos para vê-los se tornar ficção e, como um contraponto, trazem a dimensão factual, mas sempre lacunar, da história, para uma possível leitura, à contrapelo, daquilo que você ouviu, leu ou pôde experimentar em momentos de pesquisa in loco. 
Victor Leguy: Parece interessante como alguns elementos do mundo se apresentam constantemente para mim, a cada vez, repetindo a mesma cena, mesma história com um ínfimo detalhe de que não estava lá no primeiro olhar. O que era já não é mais. Normalmente, a diferença em questão é mínima, mas altera profundamente o curso do que vem a seguir, o que me faz atentar para a relação de rasura, como ela se apresenta, agindo de forma a alterar o que já estava certo do que era, e reposiciona informações de forma definitiva até sua atuação se repetir, seguindo um novo curso. Nesse ponto existe uma aproximação muito clara, a meu ver, com a particularidade dos objetos descartados. Neles existe a possibilidade da re-significação, visto que já possuem uma história de “vida”, um trajeto no tempo, aquela espécie de “bagagem” necessária para se tornar singular de alguma forma. Isso me faz traçar aproximações e distanciamentos que se relacionam prontamente com outros elementos que, como ele, estão na iminência de entrar e que talvez tenham sido separados pela ação do tempo, e ainda assim estão impregnados de experiências prontas a serem conectadas e energizadas. Transitando por entre tudo isso está a questão do anonimato, que funciona como uma espécie de corpo presente em cada situação, se abstendo de identidade, mas executando ações específicas. Esses pontos estão diretamente relacionados a essa espécie de coleta de experiências alheias; estas estórias se moldam de acordo com o momento que são contadas e passam a me pertencer também, mas costumo separar em dois grupos ― o primeiro ― por meio da transcrição, as palavras ditas são resguardadas como foram soltas, para que exista a fidelidade total neste registro. E o segundo ― a interpretação que mantém parte destes lugares e fatos, mas que se soma a outras variantes daquele momento em que é colocado como o registro que estou efetuando.
JM: A dimensão da falha é algo que você percebe como ponto crucial em seu trabalho. Ela parece construir o ponto de partida para narrativas intransitivas meio sem pé nem cabeça, justamente porque fazem da falha a possibilidade, ainda que ocasional, que dá lugar a situações imprevistas. Como se a falha da frente suscitasse a exibição do verso e inversamente. 
VL: Sim, verdade, a falha é ponto que me toma grande atenção; ela serve de porta, de fresta que possibilita que algo novo surja, aflore, se conecte, re-significando ou reordenando uma lacuna dentro de qualquer assunto ou suporte para o qual olhamos. Ela, ainda, se põe como inevitável, pois, na verdade, ela é. Sendo assim, como lidar com isso? Aprofundando um pouco mais na parte matemática de sistemas, nos deparamos com o conceito de tolerância a falhas, que foi apresentado originalmente por Avizienis, em 1967. Neste processo, os sistemas absorvem de forma mecânica ou computacional essa nova informação (falha). Entretanto, estratégias para construção de sistemas mais confiáveis já́ eram usadas desde a construção dos primeiros computadores. Apesar de envolver técnicas e estratégias tão antigas, a tolerância a falhas ainda não é uma preocupação rotineira de projetistas e usuários. Existe, ainda, um fator de contenção e de precaução usado em sistemas, a duplicação, que é usada para a substituição de componentes com falhas permanentes e também para à detecção de erros, em que, então, duas unidades executam de forma sincronizada a mesma ação, o que nos faz pensar em outro assunto relacionado à física quântica e à matemática, a duplicação de universos, o paralelismo de realidades (assunto que pretendo abordar mais tarde). De volta ao processo mais amplo que envolve falhas, quando uma falha dá origem a algo novo, nos ajuda a enxergar uma porta, um caminho através do que antes foi um erro, e, assim, nos transporta para algo que, a princípio, não parece nocivo. Por outro lado, quando acontece o oposto, as consequências são catastróficas, pois, deixando de lado a parte computacional, a parte humana é, em raríssimas vezes, detectada e atua de forma exponencial no processo.
JM: Ainda sobre as pessoas com quem você cruza e que você retrata, como você afirma, algumas foram encontradas pessoalmente e outras em documentos cuja origem nebulosa sequer permite pensar sobre o que foram ou o que são, caso ainda existam como sujeito histórico, porque podem ser outro anônimo da história. E, em meio a tantas orientações disfuncionais, a reagrupamentos desconexos e a temporalidades anacrônicas, essas figuras, quando chegam em seu trabalho, perdem quase sempre a identidade. Elas se tornam uma espécie de fantasma que vagueia, alternando os rumos da história. Nesse sentido, uma triangulação construída entre identidade, história e ficção poderia ser a deixa para você falar um pouco sobre esses pontos que aparecem com frequência em seu trabalho, que parecem pensar o sujeito como aquele que vagueia sem rumo e origem definidos. 
VL: Acho particularmente curioso como funciona o mecanismo da memória neste processo das estórias. Atentei-me ao fato que a cada vez que ele acontecia uma parte da história era alterada, da mesma forma que um fluxo de correlações se apresenta, pois elas são recontadas sistematicamente de geração em geração por descendentes, depois pelos descendentes dos descendentes, num tipo de onda sonora que se propaga, se amplia, como uma espécie de dízima estranha e caótica. Ocorre-me, ainda, uma analogia que cabe bem a este caso: dois amigos se encontram e conversam; em seguida, um deles parte para uma cidade e o outro para outra, mas a memória do encontro permanece. Cada um vai encontrando outras diferentes pessoas sucessivamente, e a informação contida na conversa inicial propaga-se nos encontros que se seguem; esse fluxo de correlações se assemelha a todos os sistemas formados por diversas partículas (gazes, líquidos etc.), que englobam uma quantidade cada vez maior de partículas. Surge, então, uma segunda espécie de tempo, não ligado às moléculas individuais, nem a cada um dos indivíduos, mas sim às relações entre as moléculas ou, no caso às pessoas, talvez uma espécie de memória residual que se apresenta sem um sujeito definido, com muitos ou sem nenhum.
JM: Ao mesmo tempo em que alguns desses assuntos parecem mobilizar artistas de diferentes lugares do mundo, fazendo com que um ou outro desses problemas se torne lugar-comum da arte contemporânea, você mantém um firme interesse em encontrar um meio de se colocar no mundo. Obviamente, a via que você procura não parece ser a da singularidade ― situação muito exigida no processo de elaboração da marca de registro que favorece o mercado a transitar aqui e acolá com seus artistas favoritos. Por isso me parece oportuno falarmos sobre seu entendimento a respeito de ideias como trajeto e trajetória na arte contemporânea. Já que o seu trabalho é, em certa medida, um elogio ao deslocamento, ao trilhar e ao escavar, parece-me interessante pensar sobre como você integra o assunto que o mobiliza com a noção de trajetória vinculada ao próprio artista. 
VL: Trajeto e trajetória, o espaço que estamos ocupando e a linha que decidimos traçar para chegar a algo, algum lugar ― o artista, a meu ver, perambula constantemente num terreno onde pouca coisa se pode realmente ver, enxergar, algo certificado, uma sensação de constante meia-luz ― parte se pode ver, parte não. Penso ser lindo o fato de tatearmos algo que muda de forma constantemente, pois nossa visão muda; o artista é o observador e um mero figurante no universo cartesiano em que vivemos, mas passa a interferir diretamente no fenômeno observado. Dentro da pesquisa que tenho feito, os dados e as informações contidos no seu interior, que embasam, que atestam, se atualizam constantemente, recebem, a todo momento, informações que passam a fazer parte da obra até a hora de sair do local onde estou produzindo. Sinto-me uma espécie de artista-observador ― dependendo da experiência idealizada para estudar o fenômeno, sou eu quem, em ultima instância, decide o que quer ver, se o aspecto partícula ou aspecto ondulatório a que me coloco. O mundo material, portanto, apresenta-se enquanto interação entre o observador e a coisa observada, são inseparáveis. 
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Josué Mattos interview Victor Leguy
Paço das Artes / Temporada de projetos_2014
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Josué Mattos: At first sight, the erasure, the discarded object and anonymity seem starting points for a research that you develop in order to regroup different situations. You collect other people's experiences through informal conversations and, therefore, uses different media. In your work it is common the value of the meeting - as in the case of work that shows in this exhibition, the result of a research conducted in residence in Finland in 2013 - but it does not delete information from Conversely, the authenticity of which, being compromised, breaks the rules. What could be interesting in the first place is to think in these inconsistencies, who validates historical events to see them become fiction and, as a counterpoint, bring the factual dimension, but always incomplete history, for a possible reading, unlike what you heard, read or might experience in on-site search times.

Victor Leguy: Sounds interesting as some elements of the world constantly present to me, each time repeating the same scene, same story with a tiny detail that was not there in the first look. What was is no longer. Typically, the difference in question is minimal, but markedly changed the course of what comes next, which makes me pay attention to the erasure ratio, as it presents itself, acting to change what was already sure what it was, and repositions information permanently to his performance be repeated, following a new course. At this point there is a very clear approach, in my view, with the particularity of discarded objects. In them there is the possibility of reframing, since they already have a history of "life", a path in time, that kind of "baggage" needed to become unique in some way. It makes me draw similarities and differences that relate readily with other elements, like him, are about to enter and who may have been separated by time and yet are steeped in experience ready to be connected and energized. Transiting through all this is the question of anonymity, which acts as a sort of present body in every situation, abstaining identity, but implementing specific actions. These points are directly related to this kind of gathering experiences of others; these stories are molded according to the time that are told and now belong to me too, but usually separate into two groups - the first - through the transcript, the words spoken are safeguarded as were loose, so that there is total fidelity in this record. And the second - the interpretation that remains of these places and facts, but that is added to other variants that moment it is placed as the record that I am making.

JM: The size of the failure is something that you realize how crucial point in his work. She seems to build the starting point for intransitive narratives medium without rhyme or reason, just because they make the possibility of failure, even if occasional, giving rise to unforeseen situations. As the front of the failure raising the view of the back and vice versa.

VL:
Yes, indeed, the failure point is taking me great attention; it serves as a port, slot that allows something new to emerge, flourish, connect, giving new meaning or rearranging a gap within any subject or medium to which we look. It also sets as inevitable, because actually it is. So, how to handle it? Deepening a little more in maths systems, we come across the concept of fault tolerance, which was originally presented by Avizienis in 1967. In this process, the systems absorb mechanical or computational form this new information (fault). However, strategies to build more reliable systems were already used since the construction of the first computers. Although involving as old techniques and strategies, fault tolerance is not yet a routine concern of designers and users. There is also a retention factor and caution systems used in the duplication, which is used to replace components with permanent faults and also for the error detection, that then the two units synchronously execute the same action, which makes us think of another issue related to quantum physics and mathematics, duplication of universes, the realities of parallelism (subject I want to address later). Back to the broader process involving failures, when a failure gives rise to something new, we judge a door, a path through what before was a mistake, and thus takes us to something that, in principle, not seems harmful. On the other hand, when the opposite happens, catastrophic consequences are thus leaving aside the computational part of the human is in very rarely detected and acts exponentially in the process.
JM: Still on the people with whom you cross and you picture, as you said, some were found personally and in other documents whose origin nebula allows even think about what they were or what they are, if there are still as historical subject, because can be another anonymous history. And among so many dysfunctional guidelines, the disjointed groupings and the anachronistic temporality, these figures, when they arrive at their work, often lose the identity. They become a kind of ghost that wanders, alternating the direction of history. Thus a triangulation built between identity, history and fiction could be the cue for you elaborate on these points that appear frequently in his work, who seem to think the subject as one who wanders aimlessly and defined origin.

VL:
I think particularly curious how the mechanism of memory in the process of the stories. I have seen myself to the fact that every time he happened a part of history was changed in the same way that a flow of correlations is presented because they are systematically retold from generation to generation by descendants after by the descendants of the children, a kind sound wave propagating, expands, as a kind of strange and chaotic tithe. It occurs to me, still, an analogy that fits well in this case: two friends meet and talk; then one part to the other and a city to another, but still encounter memory. Each will finding other different people successively, and the information in the initial conversation propagates in the meetings that follow; This flow is similar correlations for all systems formed by several particles (gases, liquids, etc.) that include an increased amount of particles. Then comes a second species of time, not connected to individual molecules, or to each of the individuals, but the relationships between molecules or in case people maybe a kind of residual memory that has not defined a subject with many or no.
JM: While some of these issues seem to mobilize artists from different parts of the world, causing one or the other problem becomes commonplace of contemporary art, you keep a firm interest in finding a way to put the world . Obviously, the way you were looking for does not seem to be the uniqueness - very situation required in the process of registration mark that favors the market to move here and there with your favorite artists. So it seems to me appropriate to talk about their understanding of ideas as path and trajectory in contemporary art. Since their work is, to some extent, a compliment to the displacement, the tread and the digging, it seems interesting to think about how you integrate it that mobilizes with the trajectory of the concept linked to the artist himself.

VL: Path and trajectory, the space we are occupying and decided to draw the line to come up with something, somewhere - the artist, in my view, constantly wanders in a land where little can actually see, see, something certificate, feeling of constant half-light - part one can see, part no. I think it is beautiful the fact tatearmos something that constantly changes shape, because our vision changes; the artist is the observer and a mere extra in the Cartesian universe we live in, but shall directly affect the observed phenomenon. Within the research I have done, the data and information contained therein, that support, which attest, are updated constantly receive at all times, information that becomes part of the work until the time you leave the place where I am producing. I feel a kind of artist-observer - depending on experience conceived to study the phenomenon, I who will ultimately, decide what you want to see if the particle aspect or wave aspect to that place myself. The material world, therefore, is presented as interaction between the observer and the observed, are inseparable.
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